Gostava de começar por definir a palavra "contrastes". Contraste, é uma espécie de comparação sem comparação. É uma tentativa de equiparar pólos opostos.
Depois de percebermos o que são contrastes, chegamos a Angola.
Tive a oportunidade de poder vestir a camisola do produtor antes de ler o guião do filme, que se previa que fosse de terror (mas toda a gente sabe que há filmes de terror que não são nada maus...). E foi assim.
À chegada a Angola esteve associada uma expectativa e curiosidade máxima. Eu própria não sabia se o que sentia era ansia ou medo, se bem que só temos medo quando ansiamos algo mau.
O mundo muda, os nossos olhos reviram e vêem algo que nunca pensaram vir a ver. Dos 12 dias em que lá estive, os 3 primeiros andei a bater com a cabeça nas paredes PORQUE: é desumano morar com 2 metros de lixo empilhado à porta de casa; é desumano fazer as necessidades na rua; é desumano não ter sequer passeio para andar na rua.
Em contrapartida, passamos a vida toda a estudar/trabalhar para poder passar as férias no sítio onde esta gente mora desde sempre. Água do mar quente, areia clara e sol o ano inteiro. Quem não queria? Bom peixe, boa comida. Aos bens materiais, ponho-lhes um STOP e deixamo-los em casa. A vida é muito mais saudável assim...
Mas, em todos as histórias há um "what if":
E se a o início de uma guerra perdida não tivesse começado?
E se o comunismo deve o braço à sanidade mental e tentasse passar uma borracha sobre "os direitos humanos by quem achamos que tem razão"?
E se nos pusemos na pele de quem vive com 1€ por dia, há... Desde que se lembra de ser gente?
Sei que a revolta que me por mim passou ao reflectir sobre tantas evidencias, é também um ponto de vista contraditório. Porque no início da pirâmide, existe uma característica peculiar que faz daquele povo, um tanto ou quanto comodista - a sobrevivência.
É sabido que a sobreexploração africana ultrapassou limites. Mas a meu ver, não vai ser fácil conseguir mudar tão depressa as futuras gerações...
Os slogans incentivam para gestos banais como: Lava as mãos antes de comer / não faça as necessidades na rua / ponha o lixo no contentor. Curto e objectivo, são as tentativas de melhorar a qualidade de vida.
No entanto, é com pena que tenho que admitir que: um povo que sempre foi obrigado a cumprir ordens, ser ele agora a ter que tomar iniciativas, é o inverso do que até agora era (quase) protocolo.
As pessoas vivem do mercado ambulante. É na rua que se faz dinheiro. É no trânsito que se ganha o dia. Tudo se vende na rua, tudo mesmo, mesmo TUDO! Com uma estimativa de 4 pessoas por metro quadrado, têm que se sobreviver, têm que se dar a volta der por onde der. É assim que vive. Se não tenho dinheiro para 2 jornais: compro um, leio-o e depois troco-o por quem tiver o outro que quero ler. "Qual é a dinâmica disto? Nenhuma."
Mas, atrás quando falei em contraste, há que reter que pessoas passam mal, mas lá também há quem passe melhor do que eu neste momento. Ou se é pobre ou se é rico, muito rico. Hierarquização económica não existe. Há 2 extremos e só isso. Ou se vive bem ou se faz por conseguir viver só mais hoje.
A vida é cara, eles são muitos, mas os produtos "gourmet" acabam. E é a peixeira que trabalha na rua que vai largar a banca para os ir comprar? Não me parece...
Aprendi e cresci, tenho a certeza. Lá aprende-se a viver e sobretudo a sobreviver.
Em Agosto, continua...

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